A vida é um contínuo para o qual o homem criou marcos que lhe vão balizando a vida. Por isso criamos objectivos, agimos de modo a realizá-los e depois avaliamos todo o processo. Este é um momento convencional de avaliação pois chegámos ao fim do ano lectivo. Está na hora de oficialmente prestar contas, fazer relatórios e submetê-los à avaliação dos superiores. Não é isso que aqui vou fazer. Aproveitando o feriado do dia de Portugal e de Camões, o dia da nacionalidade, quero apenas, como membro da equipa e coordenadora deste projecto, deixar o meu testemunho de uma belíssima experiência. É por isso imperioso que comece com uma citação
d'Os Lusiadas, de quando Vasco da Gama, capitão da armada portuguesa se dirige ao Rei de Melinde e lhe fala da valentia do povo português:
"Que outrem possa louvar esforço alheio,
Cousa é que se costuma e se deseja;
Mas louvar os meus próprios, arreceio
Que louvar tão suspeito mal me esteja
E para dizer tudo, temo e creio,
Que qualquer longo tempo curto seja:
Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
Irei contra o que devo, e serei breve.
Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
É não poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me há-de ficar inda por dizer.
Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
Segundo o que desejas de saber,
Primeiro tratarei de larga terra,
Depois direi da sanguinosa guerra."
Os Lusiadas, III- 4 e 5
Aqui a "larga terra" será o trabalho, o projecto, e a "sanginosa guerra" será a tenacidade e o empenho daqueles alunos que se envolveram para que eles fosse uma realidade, para que tivesse visibilidade e projecção.
A luz só é mágica quando ilumina, quando permite vislumbres.
Lighting up the darkness implica a entreajuda, o ser solidário, a partilha de constrangimentos, realizações e afectos. A ajuda directa está documentada, aconteceu de forma agendada ou espontânea, na biblioteca ou no polivalente, mas foi realidade. Foi uma experiência que aproximou e conferiu sentido de responsabilidade a todos. Essa é a componente pragmática e documental alvo da avaliação em formulário Comenius. Não é essa que interessa hoje.
Hoje quero falar acerca da grandeza daqueles que conheci mais de perto, que me tocaram pela geerosidade, pela entrega, pela ingenuidade, pela luta, pela genuidade. Falar daqueles que vi como congregadores de esforços, como aglutinadores de culturas, como elementos de um grupo bem definido: jovens europeus. Jovens curiosos e sedentos de saber, de experiências supervisionadas, acerditadas e únicas. Podia dizer nomes, não dos cerca de sessenta que se inscreveram, mas dos outros que foram resistindo e chegaram ao fim. Longo foi o ano e o caminho percorrido, as actividades desenvolvidas, as tardes de trabalho, à quarta ou à sexta, sobretudo antes dos encontros internacionais onde se juntavam aos outros jovens europeus de mais sete países. Aí conviveram, aí se revelaram e descobriram. Aí brilharam e foram reconhecidos. Aí foram responsáveis, afectivos, atentos, caprichosos, solidários e unidos. Foram amigos e fizeram amizades. À Aneta Lesniak, à Inês Roma, à Inês Rosa, à Joana Agoas, à Madalena Banha, à Margarida Silva, ao Nuno Arraiano, à Rita Lima, à Teresa Carvalheira, à Vera Silva e ao Zé Silva deixo os meus parabéns por toda a sua postura.
Foram cinco os que participaram no encontro de Dezembro, em Hameln, Alemanha, e seis os que participaram no encontro de Maio, em Andújar, Espanha, mas outros ficaram e o seu contributo e envolvimento foram meritórios e nalguns casos abnegados. Pena é que a sociedade queira para tudo uma avaliação quantitativa e que o espírito da retribução seja uma norma condicionante de causas. As aprendizagens e mais-valias que se traduzem apenas em vivências e em formação da personalidade e dos saberes, não chegam para compensar o eventual transtorno e por isso muitos dos alunos que inicialmente se inscreveram acabaram por deixar de aparecer, de estar envolvidos no espírito do projecto e do grupo. Pode ser que novas oportunidade surjam nas suas vidas e que as agarrem com a determinação e tenacidade que agora lhes faltou.
A todos desejo um final de ano repleto de realizações e, sobretudo para aqueles que vão deixar a Gabriel Pereira, desejo que a sua passagem por aqui teha sido verdadeiramente formativa. Para aqueles com quem partilhei
Lighting up the darkness desejo que esta seja sempre uma memória agradável e uma luz verdadeira e eternamente mágica nas suas vidas.
A professora,
Ana Agoas